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Aurélio Ramos |
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O Lobo e a LuaO Lobo e a Lua
O fim de tarde passava calmo no sítio, todos sentados à beira da fogueira, rindo conversando e contando histórias de terror, os pequenos já começavam a se assustar, então resolvi contar uma história de amor, mesmo sem final feliz, não deixava de ser sobre o amor... À fogueira a emitir sons, o estalar da madeira verde, deixavam a todos mais ansiosos, então comecei a narrar a história de dois jovens, que se amaram intensamente, e da maldade que cerca a todos, esperando o fim desse amor... Nascera em uma aldeia bem distante, em um tempo antigo, onde tudo era mágico, obscuro, no céu durante a noite, havia apenas poucas estrelas a brilharem, aqui e ali. Um tempo frio, sem muita esperança, onde os mais fortes conseguiam o que queriam, e aos fracos nada mais restava do que se apegar aos Deuses das florestas, e outras criaturas menores, mas de igual poder, em ajudar ou prejudicar, a quem recorria a eles. Nessa época longínqua, seres benéficos ou malignos, desciam a terra e transitavam por entre os pobres mortais, partilhavam da fogueira, da comida e festas que na maioria das vezes eram em sua homenagem. Em uma cabana pequenina, nascera uma menina de beleza sem igual, ela era diferente dos demais de seu povoado, era tão calma, emanava de seu pequeno corpo uma luz tênue, suave, mas que encantava a todos que a cercavam. Desse dia em diante, a esperança ressurgiu no povoado, os Deuses já não eram tão venerados, ninguém mais recorria a eles, ou suplicava em desespero por sua ajuda. Essa menina tinha algo de especial, pois sem exceção, todos que ficassem perto dela, sobre a influencia daquela luz suave, se não estava, apaixonava-se, trazia a todos os corações esperança, e o povoado começou a prosperar. Inimigos surgiam, apareciam entre o povo, destruíam plantações e cabanas, mas ao se depararem com a jovem, ficavam paralisados e debandavam; Espalhando por todos os cantos, sobre a aldeia, da jovem iluminada. O tempo passava, ela crescia, e se tornara uma bela jovem, a ponto de todos os jovens, ou velhos do povoado, só terem olhos para ela, isso causava inveja, das outras jovens, e mesmo das nem tão jovens assim, e com esse ódio crescendo, pela inveja e o ciúme, a vida dessa garota começou a se transformar em um pesadelo. Quando ela chegava à beira do rio, e sentava com as jovens de sua idade, todas sem exceção levantavam-se e afastavam-se dela, a pobre jovem começou a chorar toda à noite a beira do rio, o povoado começou a ser inundado, pois de tão especial que era a jovem, às águas subiam em alguns centímetros, fazendo a maré mais forte. Cansadas e com ciúmes, as jovens da aldeia se reuniram, e foram até a floresta e pediram a um Deus menor, desses que só sabem fazer o mal, que desse um jeito na jovem, fizesse ela desaparecer, transformá-la em alguma coisa, qualquer coisa, mas tirá-la do convívio do povoado. Arac era seu nome, um semideus, odioso, vingativo, maléfico, desdenhou dos pedidos das jovens, reclamando que fazia muito, muito, tempo que elas não o procuravam, mas se ajoelharam e humilharam-se, para que ele as atendesse. Arac resolveu descer ao povoado, e conhecer a jovem de perto, ver se merecia ser castigada por ele, se disfarçou, de um pobre camponês, e desceu ao povoado, quando ia por entre as cabanas, escorregou e levou um tombo, quando se ajeitava para levantar-se, a jovem, que todas as moças odiavam, estendeu-lhe a mão, ofereceu água, um pedaço de pão, conversou com ele por horas e horas, Arac saiu encantado do povoado, e como sempre, todos que a encontravam apaixonavam-se, e desta vez não fora diferente. Passou o tempo a jovem se tornou moça de corpo bem feito, linda como ela só, encantava os rapazes, vinham de longe, de outros povoados, para trazerem presentes, e oferecer casamento, mas eram recusados, até que um dia um jovem caixeiro, que fazia a troca de mercadorias entre o povoado, e há muito tempo distante daquela terra; apareceu para comercializar seus produtos, e foi amor à primeira vista, apaixonaram perdidamente, um amor tão intenso, só podia causar mais ódio e inveja, o jovem que se chamava Klaus, sempre fora cobiçado pelas moças do povoado, há mais tempo, e isso foi à gota d'água, Chamaram Arac, que havia desistido de fazer mal a jovem, e se apaixonara perdidamente, ele tentava negar a si mesmo, a existência do amor, nunca pensou ter coração, nunca ouvira o mesmo bater, a não ser pela antecipação de alguma maldade que fizera. Falou a todas as jovens, que trouxessem a moça até a floresta durante a madrugada, que ele queria ela para si, e nunca mais a veriam. As moças receberam uma poção mágica, e misturaram na água que a jovem bebeu, esperaram que ela não tivesse mais reação, e levaram ao local combinado, Arac a envolveu com a sua capa negra, e sumiu como em um passo de mágica desaparecendo, para não mais voltar. Em um lugar que não é o céu, e nem é terra, a jovem se viu distante de quem amava, longe do povoado aonde nascera, cercada por figuras assustadoras, e mesmo sendo assustadoras, tinham medo de Arac; esse semideus, de maneiras rudes, se transformou diante da jovem, de maneiras suaves, a cobria de flores, presentes dos mais cobiçados, mas mesmo assim ela não o aceitava, passavam se os dias, longos, frustrantes, Klaus que havia seguido seu caminho, com promessa de voltar, já estava perto do povoado, e lá do alto a jovem, preocupava-se, com o sofrimento do seu amor, que não a encontraria, o que seria dele, o que ele faria, e de tanto desespero começou a chorar, Arac não sabia, mas os dois já haviam tido sua noite de amor, onde se entregaram de corpo e alma, jurando amor eterno. E dessa noite mágica, surgiria outra vida, uma mistura de dois jovens amantes, que seria a prova do amor tão bonito que sentiam. Enquanto ela via o seu amado, aproximando-se do povoado, seu ventre ia crescendo, Arac vendo que ela não ia pertencer a ele nunca, enraivecido, colocou a pairando sobre a aldeia, para que todos vissem os seus poderes. Klaus o jovem caixeiro, ao entrar no povoado, e ver todo o povo entristecido, temeu por algo ruim, perguntou aqui e ali, mas ninguém falava nada, até que olhou para o alto e viu seu amor, pairando sobre o povoado, chorando e com seu ventre cheio; ele ficou desesperado, caiu de joelhos chorou intensamente, e resolveu ir ao ponto mais alto, onde quem sabe pudesse tocar o seu amor. Subiu a montanha mais alta e começou a chorar para que a jovem o ouvisse, para que seu amor soubesse que ela estava ali, e que ficaria eternamente ao seu lado, e chorava, gritava, urrava de desespero, Arac já não podia agüentar mais, com aquele som odioso, que mais parecia de um bicho, e não de um mortal, e fazendo mais uma de suas maldades, que agora era movido, pelo ódio, ao amor não correspondido, transformou Klaus em um lobo, para que ele vagasse pela floresta, e por toda à noite, visse o seu amor, pairando sobre a sua cabeça. A jovem não sabia o que fazer, e começou a definhar com toda aquela situação, minguava a olhos vistos, pois não via mais o seu amor, que mesmo de longe lhe dava esperanças. Klaus vagou dias por entre arvores, caçou como um animal, encontrou outro de sua espécie, que agora não era mais humano, e sim um lobo triste, um ser que não sabia mais o que era paz. Até que surgiu em sua mente, agora confusa, que a única lembrança forte, e que não se apagara, era o amor que sentia, e sendo assim, ensinou aos outros lobos a ganirem, uivarem para seu amor lá no céu. E hoje em dia, quando deitados em suas camas os jovens amantes ouvem da floresta, aqueles uivos fortes e melancólicos, sabem que é o choro de um amor perdido. E o quanto um amor puro e sublime, pode causar os sentimentos mais odiosos, em quem não os tem correspondido. Há; e a propósito, o nome dessa jovem, era Lua... Aurélio Ramos
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